Fora da disputa pelo Oscar, Neruda faz um retrato pouco convencional do poeta chileno

Fora da disputa pelo Oscar, Neruda faz um retrato pouco convencional do poeta chileno

Numa piada famosa entre os chilenos, um turista pede a um motorista de táxi que o leve à casa de Pablo Neruda, em Santiago. “Qual delas”, pergunta o taxista. “Como assim? Ele tinha várias casas?” “Sim, como todos os comunistas.”

Eu me lembrei da piada assistindo a “Neruda”, do cineasta chileno Pablo Larraín, que estreou na quinta-feira nos cinemas. Explico adiante.

Não se trata, de forma alguma, um filme biográfico convencional. Como no já clássico “O carteiro e o poeta” (1994), de Michael Radford, cujo verdadeiro protagonista é o humilde carteiro Mario, que sonha se tornar poeta, pode-se dizer que em “Neruda”, tampouco, o escritor chileno é o verdadeiro protagonista da história.

Cheio de liberdades, o retrato de Pablo Neruda no longa-metragem de Pablo Larraín não é sentimental nem chapa-branca, nem tem a pretensão do compromisso com a verdade histórica, ainda que a história esteja ancorada em datas e fatos reais. Trata-se, deliberadamente de um personagem “inventado”, com falas e atitudes fictícias.

Para o diretor chileno, importa mais a função simbólica da escrita que a vida real do personagem. Ele próprio filho de um casal de políticos (de direita), Larraín pesa mais a mão na militância de Pablo Neruda que no aspecto lírico de sua obra, mesmo nos poucos poemas que pontuam o roteiro.

O eixo da narrativa é a dramática fuga de Pablo Neruda (Luis Gnecco) para a Argentina em 1948, quando atravessou os Andes no lombo de um cavalo; na época, Neruda era senador pelo Partido Comunista, posto na ilegalidade pelo presidente González Videla. (Ao receber o Nobel de Literatura, em 1971, Neruda evocou o episódio com algumas licenças poéticas, lembrando que seu cavalo sangrava pelas patas e narinas, que atravessou “círculos mágicos” e presenciou estranhos rituais, com vaqueiros dançando em volta de um crânio de um boi.)

Se a premissa é verdadeira, quase todo o resto é fantasia, aí incluído Peluchonneau (Gael García Bernal), o inspetor de polícia escalado para perseguir e prender o poeta. Peluchonneau, este sim, é o personagem principal da trama, além de seu narrador. Por meio da sua voz em off, o espectador se dá conta de que o coração da matéria de “Neruda” não é o poeta nem sua fuga, mas a crise existencial do inspetor, que filosofa de forma ambivalente sobre o sentido de sua existência, enquanto persegue implacavelmente Neruda.

O filme foi recebido com ressalvas no Chile. Em diversos momentos, a interpretação de Gnecco se aproxima perigosamente da caricatura: ainda que a intenção do diretor fosse humanizá-lo, Pablo Neruda é apresentado como um comunista burguês, vaidoso e frívolo, cheio de vícios e fraquezas incompatíveis com a imagem de defensor dos pobres fixada pela posteridade. Em outras palavras, Neruda aparece aqui em uma versão levemente “esquerda caviar”. Daí a lembrança da piada do início do texto.

Mais importante cineasta chileno em atividade, Pablo Larraín já tem no currículo um filme sobre os porões da pedofilia na Igreja (“O Clube”, 2015), outro sobre a era Kennedy (“Jackie”) e uma trilogia sobre a ditadura Pinochet – “Tony Manero”, 2008; “Post Mortem”, 2010; e “No”, 2012, também com Gael García Bernal.

PS: “Neruda” era uma das presenças consideradas certas na lista de pré-selecionados do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, divulgada na sexta-feira. Não foi indicado. “Julieta”, de Pedro Almodóvar, e “Elle”, de Paul Verhoeven, outros favoritos, tampouco. O brasileiro “Pequeno segredo”, de David Schurmann, meu favorito pessoal, também não. Mas a disputa pelo Oscar, como qualquer competição, é assim mesmo: cada um tem o direito de torcer pelo seu candidato preferido. Mas, se ele não é indicado, ninguém deve ficar de mimimi, nem desqualificar os adversários. É dessa forma que adultos se comportam. Recado dado. Os entendedores entenderão.

g1

18/12/2016

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